Veio para servir, não para ser servido
Nesta quarta-feira, a liturgia coloca diante de nós duas cenas que se iluminam mutuamente. Na primeira, um profeta descobre que os que ele defendeu diante de Deus estão tramando contra a sua vida. Na segunda, Jesus sobe para Jerusalém sabendo exatamente o que o espera, e ainda assim continua. As duas cenas têm o mesmo coração: a escolha de servir mesmo quando o preço é alto.
Esta quarta-feira pertence à Semana II da Quaresma, e a liturgia começa, a partir desta semana, a apontar cada vez mais diretamente para a Páscoa. O caminho está ficando mais estreito. E Jesus não esconde isso dos seus.
As leituras do dia
A Primeira Leitura é do profeta Jeremias (18,18-20). A cena é brutal na sua simplicidade. Os líderes do povo se reúnem e decidem: vamos destruir Jeremias. A arma escolhida não é a espada, é a língua. "Vinde e o ataquemos com a língua." E o motivo que os move é uma lógica fria: mesmo que o profeta desapareça, a Lei não vai falhar, o conselho dos sábios continuará, o oráculo dos profetas da corte não vai faltar. O que um homem faz falta, no fundo?
Jeremias ouve e responde da única forma que conhece: vai à presença de Deus. "Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários." E então a pergunta que dói: "Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira."
O Salmo 30(31) responde com a voz de quem aprendeu a confiar mesmo no meio da armadilha: "Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito." São palavras que Jesus repetirá na cruz.
O Evangelho é de Mateus (20,17-28). Jesus toma os doze à parte enquanto sobem para Jerusalém e os avisa com uma precisão que impressiona: "O Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará." É o terceiro anúncio da Paixão no Evangelho de Mateus. Jesus não está sendo pego de surpresa. Ele sabe. E segue.
Mal Jesus termina de dizer isso, a mãe de Tiago e João se aproxima com um pedido: que seus filhos se sentem um à direita e outro à esquerda no Reino. Jesus não a repreende com dureza. Pergunta apenas: "Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?" Eles respondem que sim. E Jesus encerra o diálogo com uma frase que redefine tudo: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos."
Jeremias e Jesus: o mesmo caminho
A Igreja não coloca Jeremias neste dia por acaso. Jeremias é o profeta que mais de perto antecipa a figura de Jesus na sua Paixão. Os dois anunciam verdades que o povo não quer ouvir. Os dois são perseguidos por aqueles que deveriam ser os guardiões da fé. Os dois intercederam pelos seus algozes. E os dois terminam confiando a vida nas mãos de Deus.
A pergunta de Jeremias ressoa como um eco do que Jesus viverá em Jerusalém: "Acaso pode-se retribuir o bem com o mal?" Jeremias intercedeu por aqueles que agora cavavam uma cova para ele. Jesus morrerá pedindo perdão pelos que o crucificaram. A lógica do mundo diz que quem age assim é ingênuo. A lógica do Reino diz que é isso a grandeza.
São João Crisóstomo, comentando Jeremias, escreveu que o profeta mostra o que acontece quando um homem se recusa a se curvar diante do poder: ele fica sozinho, incompreendido, atacado com a língua. E ainda assim não abandona a missão. É exatamente o que Jesus faz no Evangelho de hoje: avisa os discípulos sobre a entrega, a flagelação, a crucificação, e continua subindo para Jerusalém.
Não sabeis o que pedis
O episódio da mãe de Tiago e João é um dos mais humanos do Evangelho. Ela quer o melhor para os filhos. Não há maldade no pedido, há amor maternal. E ainda assim Jesus responde: "Não sabeis o que estais pedindo."
O que ela pediu, sem saber, foi que seus filhos participassem do cálice. E Jesus diz que sim, eles vão beber. Tiago será o primeiro apóstolo martirizado. João viverá até a velhice, mas passará pelo exílio e pela perseguição. Os dois vão beber, cada um ao seu modo.
O Papa Francisco, comentando este trecho, foi direto: os discípulos confundem o Reino de Deus com um reino humano. Querem o poder de sentar ao lado do rei. Mas o Reino que Jesus está construindo não funciona assim. Nele, quem quer ser grande aprende a servir. Quem quer ser o primeiro aprende a ser o último.
Os discípulos ainda não entenderam que no Reino de Deus a grandeza não se mede pelo poder, mas pelo serviço. Jesus não veio para ocupar um trono, mas para lavar pés.
Papa Francisco, Homilia, Quarta-feira da Semana II da Quaresma, 2019
A lógica invertida do Reino
Jesus chama todos os doze e traça uma linha clara entre o jeito do mundo e o jeito do Reino. "Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim." Não é uma sugestão. É uma definição do que é a comunidade cristã.
No mundo, quem sobe o faz pisando nos outros. No Reino, quem quer subir desce. Quem quer ser grande serve. Quem quer ser o primeiro coloca-se por último. E Jesus não propõe isso como uma teoria. Ele aponta para si mesmo como modelo: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos."
Santo Agostinho meditou muito sobre essa frase. Para ele, o escândalo da cruz está justamente aqui: o Filho de Deus, que poderia exigir todo o serviço do mundo, se fez servo. Não por fraqueza, mas por amor. E essa escolha é o que redime.
Desceu até nós para que pudéssemos subir até Ele. Tomou a nossa miséria para nos dar a Sua grandeza. Se o Senhor serviu, quem sou eu para querer ser servido?
Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, trat. 28
São Leão Magno, no seu Sermão sobre a Paixão, lembrou que Jesus anunciou sua morte três vezes nos Evangelhos sinóticos. Não porque quisesse que os discípulos ficassem com medo, mas para que, quando chegasse o momento, não desesperassem. A entrega era livre. O cálice, escolhido.
Para que a morte do Senhor não parecesse fraqueza, Ele a anunciou de antemão. Para que não parecesse acidente, descreveu cada etapa. Sua Paixão foi uma entrega, não uma derrota.
São Leão Magno, Sermão 58 sobre a Paixão do Senhor
Subir para Jerusalém hoje
A Quaresma é esse movimento de subida. Não no sentido geográfico, mas no sentido espiritual. Subir para Jerusalém é aceitar o caminho que passa pela cruz antes de chegar à Páscoa. É perceber que não existe atalho para a ressurreição.
As leituras desta quarta-feira colocam uma pergunta concreta na vida de cada pessoa: existe alguém a quem você serviu e que retribuiu com ingratidão ou má vontade? Existe uma missão que Deus pediu de você e que está custando caro? Existe um cálice que você achou que não beberia?
Jeremias não desistiu. Jesus continuou subindo. E a frase do Evangelho que fica é simples e definitiva: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir. A Quaresma é o tempo de deixar essa frase sair da cabeça e descer para as mãos.
REFERÊNCIAS
[1] Canção Nova, Liturgia Diária, 2ª Semana da Quaresma, Quarta-feira. liturgia.cancaonova.com.
[2] Dehonianos, Quarta-feira da II Semana da Quaresma. dehonianos.org.
[3] Santo Agostinho. Comentário ao Evangelho de João, Tratado 28. New Advent, newadvent.org.
[4] São Leão Magno. Sermão 58 sobre a Paixão do Senhor. In: Obras Completas, vol. II. BAC, Madrid, 1987.