"Segue-me": O chamado que inaugura a Quaresma
O Sábado depois das Cinzas, celebrado em 21 de fevereiro de 2026, é o quarto dia da Quaresma e carrega uma mensagem surpreendente: no coração de um tempo de jejum, a liturgia apresenta um banquete. Jesus chama o publicano Levi, pecador público, desprezado, afastado, e senta-se à sua mesa. É a declaração solene de que a Quaresma não existe para os "justos", mas para quem reconhece a própria fragilidade e aceita ser encontrado por Deus. As leituras deste sábado, fixas todos os anos independentemente do ciclo litúrgico, entrelaçam Isaías 58 e Lucas 5 numa síntese poderosa: o verdadeiro jejum é inseparável da misericórdia, da justiça e da abertura radical ao chamado de Cristo.
UM VESTÍBULO ESPIRITUAL CUIDADOSAMENTE DESENHADO
Os dias entre a Quarta-feira de Cinzas e o Primeiro Domingo da Quaresma não são aleatórios. Foi o Papa Gregório Magno (pontificado 590–604) quem antecipou o início da Quaresma para a quarta-feira anterior ao primeiro domingo, garantindo exatamente quarenta dias de jejum, excluindo os domingos. Esses primeiros quatro dias funcionam como um itinerário pedagógico que introduz progressivamente os grandes temas quaresmais.
Na Quarta-feira de Cinzas, o profeta Joel e o Evangelho de Mateus apresentam o programa: as três práticas de oração, jejum e esmola feitas em segredo. Na quinta-feira, Deuteronômio 30 coloca diante do fiel a escolha fundamental entre a vida e a morte. Na sexta-feira, Isaías 58 denuncia o jejum hipócrita que coexiste com a opressão do próximo. E no sábado, a liturgia completa o arco: as promessas de restauração para quem pratica o verdadeiro jejum, e Jesus chamando pecadores à conversão.
O Catecismo da Igreja Católica sintetiza que a conversão quaresmal envolve o jejum, a oração e a esmola, três práticas que expressam, respectivamente, a conversão em relação a si mesmo, a Deus e aos outros. A Constituição Sacrosanctum Concilium vai além ao insistir que a penitência quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social. Os primeiros dias da Quaresma ensinam exatamente isto.
AS LEITURAS DO DIA
Primeira Leitura, Isaías 58,9b-14: continuação do grande discurso sobre o verdadeiro jejum, iniciado na véspera. Se a sexta-feira denuncia, "Porventura é este o jejum que escolhi?", o sábado promete:
"Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz."
A imagem central é extraordinária: quem pratica o verdadeiro jejum será "como um jardim bem regado, como uma fonte de águas que jamais secarão". A Quaresma, portanto, não é privação estéril, é reconstrução. Isaías chega a chamar o fiel de "reconstrutor de ruínas, restaurador de caminhos".
Evangelho, Lucas 5,27-32: Jesus vê Levi sentado na coletoria de impostos, diz-lhe apenas "Segue-me", e Levi, deixando tudo, se levanta e o segue. Depois oferece um grande banquete. Aos fariseus que murmuram sobre Jesus comer com pecadores, ele responde com a frase que define toda a Quaresma:
"Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão." (Lc 5,32)
Levi era publicano, cobrador de impostos a serviço do Império Romano, considerado traidor pelo povo judeu e excluído da vida religiosa. E é precisamente ele quem Jesus chama primeiro. A conversão não é pré-requisito para o encontro com Cristo: é seu fruto.
A Aclamação ao Evangelho reforça o espírito do dia: "Não quero a morte do pecador, diz o Senhor, mas que ele volte, se converta e tenha vida."
SÃO PEDRO DAMIÃO E A MEMÓRIA DO DIA
O dia 21 de fevereiro traz a memória facultativa de São Pedro Damião (1007–1072), bispo e Doutor da Igreja. Monge camaldulense, reformador incansável, foi conselheiro de seis papas e combateu com vigor a corrupção clerical de sua época. Sua figura harmoniza-se profundamente com o espírito quaresmal: a conversão começa de dentro da Igreja, e a santidade pessoal é inseparável do empenho pela reforma das estruturas.
Na Quaresma, as memórias dos santos são rebaixadas a facultativas: o sacerdote pode optar por celebrá-la ou seguir integralmente a liturgia da féria quaresmal com suas leituras próprias, que têm precedência espiritual neste tempo.
Quanto à Festa da Cátedra de São Pedro, normalmente celebrada em 22 de fevereiro: em 2026, esta data coincide com o Primeiro Domingo da Quaresma. Como os domingos quaresmais têm precedência absoluta sobre as festas dos santos, a celebração da Cátedra é simplesmente omitida este ano, não transferida para outro dia.
A TRADIÇÃO FALA
São Leão Magno, Papa do século V e um dos maiores pregadores quaresmais da história da Igreja, chamava este tempo de "sacramento da batalha contra o diabo" e insistia que o jejum era alimento para a virtude: da abstinência nascem os pensamentos castos, a vontade reta, os conselhos saudáveis.
São João Crisóstomo, com a franqueza que lhe era característica, comparava a Quaresma a uma primavera espiritual e lançava uma pergunta que até hoje incomoda: de que adianta jejuar do pão e devorar o irmão com a fala, a crítica, a fofoca?
Santo Agostinho via no jejum e na esmola as duas asas da oração que lhe permitem ganhar impulso e chegar mais facilmente a Deus. E descrevia com bela precisão o movimento quaresmal: a inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade de receber Deus.
O Papa Leão XIV, na mensagem para a Quaresma de 2026, convida a uma forma de abstinência frequentemente esquecida: a abstinência de palavras que ferem. Renunciar às palavras mordazes, ao julgamento temerário, ao falar mal de quem está ausente. E retoma uma fórmula de Bento XVI: não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus.
A QUARESMA COMEÇA COMO BANQUETE, NÃO COMO TRIBUNAL
O Sábado depois das Cinzas desmonta uma compreensão equivocada deste tempo. A Quaresma não é período de autopunição religiosa nem de espiritualidade para os virtuosos. É tempo de cura, de encontro, de chamado.
A escolha litúrgica de colocar, no quarto dia do caminho quaresmal, a narrativa de Jesus sentando-se à mesa com pecadores carrega uma afirmação teológica decisiva: a conversão é precedida pela misericórdia, não pela condenação. Levi não se purificou para depois seguir Jesus. Jesus o chamou primeiro, e a transformação veio como fruto do encontro.
Isaías completa a mensagem: quem pratica o verdadeiro jejum, aquele que solta as cadeias da injustiça e acolhe de coração aberto o indigente, torna-se jardim bem regado, fonte que não seca, reconstrutor de ruínas.
A Quaresma é, portanto, o tempo em que aceitamos a verdade sobre nós mesmos (somos pó), acolhemos o chamado de Cristo (Segue-me) e nos deixamos transformar pelo encontro com Ele e com o próximo. Cada fiel, por mais publicano que se sinta, pode ouvir hoje a mesma palavra que mudou a vida de Levi, e responder levantando-se da mesa velha para sentar-se à mesa nova.
REFERÊNCIAS
[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 1434. Editora Vozes / Paulinas / Loyola, 2000.
[2] Concílio Vaticano II. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 110. Roma, 1963.
[3] São Leão Magno. Sermões Quaresmais. In: Obras Completas, vol. II. BAC, Madrid, 1987.
[4] São João Crisóstomo. Homilias sobre o Evangelho de Mateus, Hom. LXXVII, 6. PG 58, 707.
[5] Santo Agostinho. A utilidade do jejum (De utilitate ieiunii), cap. IV. PL 40, 710.
[6] Papa Bento XVI. Audiência Geral, Quarta-feira de Cinzas, 9 de março de 2011. Vatican.va.