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Igreja Católica

Jesus nos disse "Reze assim"

Jesus nos disse "Reze assim"
24/02/2026 32 visualizações
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Nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, a liturgia coloca nos lábios de Jesus a oração mais conhecida do cristianismo: o Pai-Nosso. É o momento em que o próprio Cristo nos toma pela mão e diz: "Reze assim." Não com palavras automáticas, não por obrigação, mas com o coração aberto diante de um Pai que já sabe do que precisamos antes de pedirmos.

A Primeira Leitura do profeta Isaías prepara o terreno. O Evangelho de Mateus nos dá o Pai-Nosso. As duas leituras se encaixam com perfeição: Isaías diz que a Palavra de Deus é como chuva que desce do céu e nunca volta vazia. E Jesus nos entrega justamente uma oração feita de palavras de Deus.


As leituras do dia

A Primeira Leitura é do profeta Isaías (55,10-11). Deus compara sua Palavra à chuva e à neve: elas descem do céu, regam a terra, fazem germinar e dão fruto. "Assim a palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade." Uma imagem simples e poderosa: a Palavra de Deus sempre faz o que promete.

O Salmo 33(34) responde com a experiência de quem já provou isso: "Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, e de todos os temores me livrou." É o salmo de quem rezou e foi atendido.

O Evangelho é de Mateus (6,7-15), no coração do Sermão da Montanha. Jesus começa com um aviso: "Quando orardes, não useis muitas palavras." E então nos dá o Pai-Nosso. Depois da oração, ele faz algo que não faz com mais nenhuma outra petição: volta e comenta. Insiste no perdão. "Se vós perdoardes aos homens, vosso Pai também vos perdoará. Mas se não perdoardes, vosso Pai também não perdoará."


Por que o Pai-Nosso logo no início da Quaresma?

Não é por acaso. A Quaresma tem um ritmo próprio. A Quarta-feira de Cinzas apresentou os três pilares do tempo quaresmal: esmola, oração e jejum. Nos dias seguintes, a Igreja vai desenvolvendo cada um deles. Na segunda-feira, o Evangelho do Juízo Final falou da caridade: "Tive fome e me destes de comer." Nesta terça-feira, chega a vez da oração. E Jesus nos dá de presente justamente a oração que todo cristão carrega na memória desde criança.

Há também uma razão histórica muito bonita. A Quaresma nasceu como tempo de preparação dos que iam ser batizados na Vigília Pascal. Em determinado momento dessa preparação, a Igreja entregava solenemente o Pai-Nosso aos catecúmenos. Era um momento sagrado: receber das mãos da comunidade as palavras que Jesus ensinou. Colocar o Pai-Nosso na terça-feira da primeira semana ecoa essa tradição antiga. É como dizer: eis o começo de tudo. Aprende a rezar.


Rezar não é convencer Deus

Jesus começa com um aviso que merece parada. "Não useis muitas palavras como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras" (Mt 6,7). O Papa Francisco foi direto ao ponto numa catequese sobre o Pai-Nosso:

Os pagãos pensam que se reza falando, falando, falando. E eu também penso em tantos cristãos que acham que rezar é falar com Deus como papagaios. Não. Reza-se a partir do coração, de dentro.

Papa Francisco, Audiência Geral, 2 de janeiro de 2019

A razão é simples: "Vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais" (Mt 6,8). Rezar não é informar Deus. É estar com Ele. São Cipriano de Cartago, que viveu no século III, já ensinou: "Deus não escuta a voz, mas o coração." Isso muda tudo. Não é a quantidade de palavras que conta. É a presença.


O Pai-Nosso: uma oração no plural

Jesus nos ensina a rezar assim: "Pai nosso que estais nos céus..." A primeira palavra já é uma surpresa. Não "Pai meu." Pai nosso. Quando rezamos o Pai-Nosso, nunca rezamos sozinhos. São Cipriano percebeu isso com beleza:

A nossa oração é pública e comunitária; e quando rezamos, não rezamos por um só, mas pelo povo inteiro, porque nós, povo inteiro, somos um.

São Cipriano, De Oratione Dominica, cap. 8

Tudo está no plural. O pão nosso, as nossas ofensas, os nossos devedores. A oração cristã não é uma conversa privada entre eu e Deus. É a voz de um povo inteiro que se reconhece filho do mesmo Pai.

Santa Teresa de Ávila, que escreveu páginas e páginas sobre o Pai-Nosso no livro "Caminho de Perfeição", ficava maravilhada com a ousadia da primeira palavra:

Ó Filho de Deus e meu Senhor! Como é possível que nos deis tanto com vossa primeira palavra? É tão admirável que vos digneis descer a tal grau de humildade, a ponto de vos unirdes a nós quando rezamos e vos fazerdes Irmão de criaturas tão miseráveis!

Santa Teresa de Ávila, Caminho de Perfeição, cap. 27

A parte mais difícil

Das sete petições do Pai-Nosso, Jesus escolhe uma só para comentar depois: o perdão. "Se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes" (Mt 6,14-15).

Isso incomoda. E é para incomodar. Santo Agostinho escreveu sobre isso com toda a clareza:

Nosso Senhor, conhecendo essa tentação perigosa, ao nos ensinar as petições desta oração, não tomou nenhuma delas para tratar com mais insistência do que esta: perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.

Santo Agostinho, Sermão 7 sobre o Novo Testamento

Não é por acaso que esta petição tem uma condição: "assim como nós perdoamos." É a única do Pai-Nosso que depende de nós. As outras, Deus já está disposto a conceder. Esta, ficou na nossa mão. O Papa Francisco foi muito tocante ao falar sobre isso: quem tanto recebeu deve aprender a dar na mesma medida, sem guardar nada para si.

São João Crisóstomo oferece um consolo para quem luta com o perdão:

O que não tivemos forças de alcançar abstendo-nos do pecado, alcancemos tornando-nos mansos para com os que pecaram contra nós.

São João Crisóstomo, Homilia 19 sobre Mateus

Ou seja: se a Quaresma parece pesada, se o jejum está difícil, se a oração parece seca, há um caminho mais simples do que parece. Perdoa alguém. Isso já é Quaresma vivida de verdade.


A chuva que não volta vazia

Isaías diz que a Palavra de Deus é como chuva: desce, rega, fecunda e não volta sem cumprir o que foi enviada para fazer. O Pai-Nosso é justamente a Palavra de Deus colocada nos nossos lábios. São Cipriano notou isso:

É uma oração amorosa e amiga dirigir-se a Deus com as suas próprias palavras, fazer chegar aos seus ouvidos a oração de Cristo.

São Cipriano, De Oratione Dominica, cap. 3

Quando rezamos o Pai-Nosso, o Pai ouve a voz do próprio Filho. Se a Palavra de Deus nunca volta vazia, então a oração que Jesus nos ensinou também não voltará vazia. É essa a confiança que a liturgia desta terça-feira nos oferece.

Santa Teresinha do Menino Jesus, que nem sempre sentia a oração fácil, deixou um testemunho que muita gente vai reconhecer:

Às vezes, quando estou num estado de tamanha secura espiritual que não me ocorre um único pensamento bom, rezo bem devagar o Pai-Nosso ou a Ave-Maria, e só essas orações bastam para me tirar de mim mesma.

Santa Teresinha de Lisieux, História de uma Alma

Uma prática para hoje

O convite desta terça-feira é simples e duplo. Primeiro: rezar o Pai-Nosso devagar, palavra por palavra, deixando cada petição tocar o coração. Não decorado, não automático. Como se fosse a primeira vez. Santa Teresa de Ávila dizia que às vezes passava horas na primeira palavra: Pai. E era suficiente.

Segundo, e mais exigente: escolher uma pessoa com quem esteja difícil, alguém que tenha magoado, e decidir perdoar. Não porque seja fácil. Porque o Pai perdoou primeiro. E porque não dá para rezar "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos" com rancor no coração.

A chuva de Isaías não escolhe onde cai. Cai sobre a terra que está esperando, e sobre a que não está. O que muda é se a terra está pronta para receber. A Quaresma é o tempo de amolecer o solo.

REFERÊNCIAS

[1] Canção Nova, Liturgia Diária, 1ª Semana da Quaresma, Terça-feira. liturgia.cancaonova.com.

[2] Papa Francisco. Catequese sobre o Pai-Nosso, Audiência Geral, 2 de janeiro de 2019. Vatican.va.

[3] São Cipriano de Cartago. De Oratione Dominica (Sobre a Oração do Senhor). New Advent, newadvent.org.

[4] Santo Agostinho. Sermão 7 sobre o Novo Testamento. New Advent, newadvent.org.

[5] São João Crisóstomo. Homilia 19 sobre Mateus. In: Obras Completas. PG 57.

[6] Santa Teresa de Ávila. Caminho de Perfeição, caps. 27-28. Christian Classics Ethereal Library, ccel.org.

[7] Santa Teresinha de Lisieux. História de uma Alma. Editora Vozes, 2019.

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