Menu
Igreja Católica

Foi a mim que o fizestes

Foi a mim que o fizestes
23/02/2026 39 visualizações
Compartilhar

Nesta segunda-feira, 23, a liturgia faz uma pergunta que ninguém esperava logo no início da Quaresma: como você trata as pessoas que não podem fazer nada por você? O feirante, o vizinho difícil, o colega que irrita, o estranho que pede ajuda. A resposta que você der a eles, diz Jesus, é a resposta que você deu a Ele.

As leituras deste dia conectam dois mundos que parecem distantes: um código de santidade do Antigo Testamento e a cena mais solene dos Evangelhos, o Juízo Final. Mas quando colocados lado a lado, eles dizem a mesma coisa com línguas diferentes.


As leituras do dia

A Primeira Leitura vem do Levítico (19,1-2.11-18), no coração do chamado Código de Santidade. Deus fala a Moisés e pede algo que parece impossível: "Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo." E então, em vez de listar cerimônias religiosas, lista comportamentos concretos do dia a dia. Não furtar. Não mentir. Não enganar. Não reter o salário do trabalhador. Não maldizer o surdo nem colocar tropeço diante do cego. Não ser injusto no julgamento. Não caluniar. Não guardar ódio no coração. E no final, a frase que resume tudo: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

O Salmo 18(19) responde com a voz de quem reconhece que os mandamentos de Deus não são um peso, mas uma luz: "Os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração."

O Evangelho é de Mateus (25,31-46), a cena do Juízo Final. Jesus descreve o Filho do Homem sentado no trono, separando as nações como o pastor separa ovelhas dos cabritos. Aos da direita, o Rei diz: "Vinde, benditos de meu Pai! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar." Os da direita ficam surpresos: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer?" E Jesus responde: "Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes."

Os da esquerda recebem o mesmo julgamento invertido. Não fizeram nada de errado. Simplesmente não fizeram nada.


Sede santos como Eu sou santo

O mandamento do Levítico soa grandioso demais para ser prático. Ser santo como Deus é santo? Como? Mas a lista que vem a seguir revela que santidade, na Bíblia, não é uma experiência mística reservada para poucos. É pagar o salário do trabalhador no dia certo. É não falar mal de quem não está presente para se defender. É não fingir que não viu o cego tropeçando.

A frase "Eu sou o Senhor" aparece seis vezes nesse trecho do Levítico. Cada mandamento vem seguido dela, como um selo. Não roubes — Eu sou o Senhor. Não calunies — Eu sou o Senhor. Ama o teu próximo — Eu sou o Senhor. A santidade não é uma conquista pessoal. É uma participação na vida de Deus que se manifesta na forma como tratamos as pessoas ao redor.

São João Crisóstomo, que pregava no século IV para uma comunidade urbana e desigual de Antioquia, lembrava seus fiéis com frequência que não adianta enfeitar o altar de Cristo enquanto o Cristo que caminha na rua passa frio:

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o negligencies quando está nu. De nada serve honrá-lo com véus de seda no templo se fora do templo o deixas perecer de frio e nudez.

São João Crisóstomo, Homilia 50 sobre o Evangelho de Mateus

A surpresa dos dois lados

O detalhe mais perturbador do Evangelho de hoje não é o julgamento. É a surpresa. Os dois grupos ficam igualmente atônitos com a sentença. Os da direita não sabiam que estavam servindo a Cristo quando alimentavam o faminto. Os da esquerda não sabiam que estavam ignorando a Cristo quando passavam pelo necessitado sem parar.

Ninguém calculou. Ninguém estrategizou. A caridade verdadeira e a indiferença verdadeira são as duas coisas que a gente faz sem pensar. Saem do coração antes que a cabeça perceba.

Papa Francisco voltou a esta cena muitas vezes ao longo do seu pontificado. Numa homilia em Santa Marta, ele foi direto:

Quando ajudas um pobre, não faças isso pensando: "Estou ajudando Jesus." Faz porque aquela pessoa precisa. A identificação com Jesus vem depois, no juízo. Mas a caridade genuína não calcula. Ela simplesmente age.

Papa Francisco, Homilia na Casa Santa Marta, março de 2014

Santo Agostinho meditou sobre os dois grupos e identificou o núcleo da questão: os pecados de omissão. Não é só o que fizemos de errado que será examinado. É também o que deixamos de fazer quando podíamos ter feito.

Não basta não fazer o mal. É preciso fazer o bem. O cristão não é apenas aquele que se abstém do pecado, mas aquele que age com misericórdia.

Santo Agostinho, Sermão 18 sobre o Novo Testamento

Os mais pequeninos

A expressão que Jesus usa é precisa: "um destes meus irmãos mais pequeninos." No grego, o superlativo — os menores dos menores. Não os que merecem ajuda, não os simpáticos, não os que vão agradecer. Os invisíveis. Os que a sociedade descartou.

A Quaresma do Levítico é concreta: não reter o salário, não caluniar, não explorar. A Quaresma de Mateus é igualmente concreta: alimentar, dar de beber, acolher, vestir, visitar. As duas leituras convergem para o mesmo ponto: a santidade se mede em atos, não em intenções.

Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, escreveu algo que ilumina diretamente este texto:

O amor ao próximo, enraizado no amor de Deus, é antes de tudo uma tarefa para cada fiel, mas é também uma tarefa para toda a comunidade eclesial, e isto em todos os seus níveis.

Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 20, 2005

A Quaresma que começa na segunda-feira

Há algo muito sábio no fato de a liturgia colocar este Evangelho logo na segunda-feira da primeira semana. A Quaresma não é só sobre o que deixamos de fazer, o jejum, a abstinência, os sacrifícios. É também, e talvez principalmente, sobre o que passamos a fazer. Quem alimentamos. Quem visitamos. Quem acolhemos.

O Papa Leão XIV, na Mensagem para a Quaresma de 2026, lembrou que escutar é a primeira forma de servir. Antes de agir, é preciso ver. E ver exige parar. A indiferença começa sempre com a pressa que nos impede de notar quem está ao lado.

A pergunta concreta que este dia deixa não é abstrata. É uma lista. Quem ao seu redor está com fome, com sede, sozinho, doente, preso de algum jeito? Não precisa ser um gesto grandioso. Jesus disse "um destes mais pequeninos" no singular. Um. Só um já conta.

REFERÊNCIAS

[1] Canção Nova, Liturgia Diária, 1ª Semana da Quaresma, Segunda-feira. liturgia.cancaonova.com.

[2] Dehonianos, Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma. dehonianos.org.

[3] São João Crisóstomo. Homilia 50 sobre o Evangelho de Mateus. New Advent, newadvent.org.

[4] Santo Agostinho. Sermão 18 sobre o Novo Testamento. PL 38.

[5] Bento XVI. Deus Caritas Est, n. 20. Vatican.va, 2005.

[6] Papa Leão XIV. Mensagem para a Quaresma de 2026. Vatican.va.

Recomendado

José, o homem justo e silencioso no Espírito
Igreja Católica 19/03/2026

José, o homem justo e silencioso no Espírito

Fraternidade: dom e responsabilidade no caminho da conversão quaresmal
Igreja Católica 13/03/2026

Fraternidade: dom e responsabilidade no caminho da conversão quaresmal

Na história da humanidade, muitos campos do conhecimento — da arte aos modelos econômicos — tentaram imaginar uma harmonia universal en...

A oração de um carmelita para a Quaresma
Igreja Católica 09/03/2026

A oração de um carmelita para a Quaresma

Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí...

Papa reza por vítimas e famílias desabrigadas em Minas Gerais
Igreja Católica 01/03/2026

Papa reza por vítimas e famílias desabrigadas em Minas Gerais

Volume de chuvas sem precedentes no sudeste de Minas Gerais, provocou deslizamentos e inundações e deixou mais de oito mil desalojados.

Ver todas as publicações