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Entre o Jardim e o Deserto: A arte de recusar atalhos

Entre o Jardim e o Deserto: A arte de recusar atalhos
22/02/2026 58 visualizações
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O I Domingo da Quaresma, celebrado em 22 de fevereiro de 2026, começa com uma cena que todo ser humano já viveu de algum jeito: a tentação de querer mais do que se tem, de achar que Deus está escondendo algo, de buscar um atalho para a felicidade. As leituras deste domingo não são difíceis de entender. Elas falam de coisas muito concretas: um jardim, uma fruta proibida, um deserto, uma fome de quarenta dias e um homem que, diferente de todos nós, não cedeu.

Este domingo abre a Quaresma com a pergunta mais honesta que existe: por que é tão difícil resistir ao que nos faz mal? A resposta da liturgia não é uma lista de regras. É uma história. E no centro dessa história está Jesus.


Um domingo sem festa

Em 22 de fevereiro, o calendário normalmente celebraria a Festa da Cátedra de São Pedro, que recorda a missão confiada por Cristo ao apóstolo Pedro. Em 2026, porém, essa data cai no I Domingo da Quaresma, e os domingos da Quaresma têm precedência absoluta no calendário litúrgico. A festa de São Pedro é simplesmente omitida este ano, sem transferência para outro dia. Celebra-se apenas a liturgia dominical, com os paramentos roxos da Quaresma.


As leituras do dia

A Primeira Leitura vem do livro do Gênesis (2,7-9; 3,1-7) e conta o início de tudo: Deus cria o homem do pó da terra, sopra nele o fôlego de vida e o coloca num jardim. Há fartura, beleza e uma única proibição: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Então chega a serpente. Ela não bate de frente. Ela pergunta: "Foi mesmo que Deus disse que não podeis comer de toda árvore do jardim?" Uma pergunta envenenada que insinua que Deus está sendo injusto, que está escondendo algo bom. A mulher come. O homem come. E em seguida: "Então se abriram os olhos dos dois, e perceberam que estavam nus." A promessa não cumpriu o que prometeu.

A Segunda Leitura é de São Paulo (Romanos 5,12-19) e ele traça um paralelo que muda tudo: assim como a desobediência de um homem, Adão, trouxe a condenação para todos, a obediência de um só homem, Cristo, trouxe a justificação para todos. E Paulo faz questão de sublinhar que a graça foi muito maior do que o pecado. Não é empate. Cristo venceu de sobra.

O Evangelho é de Mateus (4,1-11): Jesus é levado pelo Espírito ao deserto. Quarenta dias sem comer. Quando a fome está no limite, o tentador aparece e lança três investidas. A primeira: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães." A segunda: leva Jesus ao ponto mais alto do Templo e o desafia a se jogar, citando até a Escritura para justificar o teste. A terceira: oferece todos os reinos do mundo em troca de uma única prosternação. Em cada uma, Jesus responde com a Palavra de Deus. O diabo se vai. Os anjos chegam para servir a Jesus.


O jardim e o deserto

Colocadas lado a lado, as leituras constroem um contraste poderoso. Adão foi tentado num jardim cheio de alimento e cedeu. Jesus foi tentado num deserto vazio, com fome, e resistiu. A tentação de Adão aconteceu nas melhores condições possíveis. A de Jesus, nas piores.

Isso não é coincidência. A liturgia está dizendo algo importante: Cristo veio refazer o que Adão desfez. Onde a humanidade falhou, Ele foi fiel. Não porque fosse mais fácil para Ele, mas porque Ele confiou no Pai quando todos os sinais diziam para desconfiar.

São Leão Magno, Papa do século V e um dos maiores pregadores da história da Igreja, percebeu algo surpreendente nessa cena: Jesus podia ter afastado o tentador com um simples gesto de poder divino. Não fez isso. Venceu usando a mesma arma que qualquer pessoa tem: a Palavra de Deus.

O Senhor venceu o adversário com citações da Lei, não com o poder divino, para honrar o homem e punir o diabo, vencendo o inimigo da raça humana não como Deus, mas como Homem.

São Leão Magno, Sermão 39 sobre a Quaresma

Há uma generosidade enorme nessa escolha. Jesus quis vencer do mesmo jeito que nós podemos vencer.


As três tentações de sempre

As três tentações que o diabo apresenta a Jesus no deserto não são invenções antigas. Elas têm endereço no cotidiano de cada pessoa.

A primeira, transformar pedras em pão, é a tentação de resolver as necessidades reais da vida sem Deus. De achar que a espiritualidade é para quando as coisas estão bem, mas que quando a fome aperta, cada um se vira. Jesus responde: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4,4). A vida tem dimensões que o pão não alcança.

A segunda, jogar-se do alto do Templo para que os anjos o segurem, é a tentação de forçar a mão de Deus. De querer uma prova, uma garantia antes de confiar. "Se Deus existe, que apareça." Jesus responde: "Não tentarás o Senhor teu Deus" (Mt 4,7). A fé não é um seguro que se aciona quando a vida aperta. É uma relação que se vive no dia a dia, também quando Deus parece silencioso.

A terceira, prostrar-se diante do diabo em troca de todos os reinos do mundo, é a tentação do atalho. De conseguir o que se quer sem pagar o preço que a vida exige. Jesus encerra: "Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto" (Mt 4,10). Não existe atalho que não tenha um custo escondido.

O Papa Francisco nomeou essas três tentações com a clareza que lhe é característica:

As três tentações indicam três caminhos que o mundo sempre oferece, prometendo grande sucesso: a ganância de possuir, a vanglória humana e a instrumentalização de Deus. São três caminhos que levam à ruína.

Papa Francisco, Angelus, I Domingo da Quaresma, 10 de março de 2019

A vitória que também é nossa

O que mais consola nessa cena não é que Jesus foi tentado e venceu como um super-herói. É que Ele foi tentado como nós somos tentados, com fome, com cansaço, com promessas de saída fácil, e nos deixou um caminho que podemos seguir.

Santo Agostinho escreveu uma frase sobre isso que não envelhece:

Se em Cristo fomos tentados, Nele vencemos o diabo. Reparas que Cristo foi tentado e não reparas que venceu? Reconhece-te tentado Nele e reconhece-te vitorioso Nele.

Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 60, 2-3

A vitória de Cristo no deserto não pertence só a Ele. Ela foi conquistada para nós e pode ser vivida por nós, não pela nossa força de vontade, mas pela nossa união com Ele.

O Papa Leão XIV, na Mensagem para a Quaresma de 2026, convida a começar a Quaresma por algo bem concreto: cuidar das palavras. Antes de pensar em grandes penitências, que tal examinar o que falamos, especialmente sobre quem não está presente para se defender?

Comecemos por desarmar nossa linguagem, evitando palavras duras e julgamentos precipitados, abstendo-nos da calúnia e de falar mal dos que não estão presentes. Assim, palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.

Papa Leão XIV, Mensagem para a Quaresma de 2026

Pó que resiste

Este domingo começa com um punhado de pó: Deus modela o homem da terra (Gn 2,7). E termina com esse mesmo pó humano, com fome e sozinho num deserto, resistindo ao tentador com a Palavra de Deus na boca.

Somos feitos de pó. Carregamos a fragilidade de Adão. Mas também carregamos, pelo Batismo, a vitória de Cristo. A Quaresma é o tempo em que a Igreja nos convida a lembrar disso: não somos apenas o Adão que cedeu. Somos também o povo que Cristo carregou consigo no deserto e trouxe de volta ao Pai.

Cada vez que a tentação bater à porta nestes quarenta dias, e ela vai bater, a resposta que Jesus ensinou no deserto continua valendo: a Palavra de Deus é mais forte do que qualquer promessa vazia.

REFERÊNCIAS

[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 394-395; 538-540. Editora Vozes / Paulinas / Loyola, 2000.

[2] São Leão Magno. Sermão 39 sobre a Quaresma, I. In: Obras Completas, vol. II. BAC, Madrid, 1987.

[3] Santo Agostinho. Enarrationes in Psalmos, 60, 2-3. CCL 39, 766.

[4] Bento XVI. Angelus do I Domingo da Quaresma, 21 de fevereiro de 2010. Vatican.va.

[5] Papa Francisco. Angelus do I Domingo da Quaresma, 10 de março de 2019. Vatican.va.

[6] Papa Leão XIV. Mensagem para a Quaresma de 2026: "Escutar e Jejuar. Quaresma como Tempo de Conversão", 5 de fevereiro de 2026. Vatican.va.

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